Pesquisadores escrevem na Folha contra a hidroxicloroquina e cometem gafe monumental

Eles estão tão por fora do assunto que sabem menos que um leigo que acompanha razoavelmente bem as notícias.

Por Daniel Victor Tausk
Há pessoas que passam vergonha em público e há os autores desse artigo na Folha de São Paulo para os quais precisamos criar toda uma nova categoria. Escreveram um artigo se colocando na posição de grandes cientistas sérios ensinando como se faz Ciência aos ignorantes que defendem o uso da hidroxicloroquina para tratamento de covid e cometeram uma gafe inacreditável.

Lembram do último escândalo do Lancet? Grande estudo observacional publicado no Lancet em maio do ano passado, mostrando que hidroxicloroquina não só não era eficaz contra covid, mas era perigosa e aumentava a mortalidade. Após a publicação, vários pesquisadores independentes perceberam diversas inconsistências nos dados e escreveram uma carta pública que terminou com a retratação do artigo. O artigo era uma fraude. O assunto foi bastante noticiado na imprensa mainstream e qualquer leigo minimamente interessado no tema lembra dessa história.

Pois bem, os grandes cientistas que escreveram ontem (01/02) na Folha de São Paulo inverteram o sinal da história: segundo eles, esse artigo no Lancet dizia que a hidroxicloroquina funcionava:

"A lista também inclui o artigo originalmente publicado na The Lancet em maio de 2020 que sugeria que cloroquina tinha efeitos positivos, mas que, apenas um mês depois, foi objeto de retratação pela própria revista em função de graves deficiências na qualidade dos dados utilizados, incluindo falta de transparência na sua coleta."

Eles estão tão por fora do assunto que sabem menos que um leigo que acompanha razoavelmente bem as notícias. É como se dois historiadores fossem escrever um artigo no jornal num tom "vão estudar história seus ignorantes" e afirmassem no artigo que Getúlio Vargas derrubou Dom Pedro I, dando início à Guerra dos Cem Anos. Passar só um pouco de vergonha é para os fracos.

Agora, você pode estar pensando, "mas se os outros argumentos que aparecem no texto são bons, a gafe não importa tanto". Pois é, se os outros argumentos no texto fossem bons, poderíamos ignorar a gafe e analisar o mérito desses outros argumentos. Só que os outros argumentos só mostram que os autores nem entendem do que se trata o debate. O debate relevante em torno da hidroxicloroquina é sobre sua eficácia, quando usada nos primeiros dias de sintomas ou como profilaxia, para reduzir a severidade desses sintomas e para reduzir a probabilidade de progressão para a forma mais grave da doença. É o tal "tratamento precoce". Não conheço nenhum proponente do uso da hidroxicloroquina em pacientes adiantados de covid.

Os autores do artigo na Folha parecem nem se dar conta de que exista uma distinção a ser feita aí. Provavelmente nunca nem olharam os estudos randomizados em que a droga é usada em pacientes ambulatoriais e citam como evidência contrária à eficácia metanálises que incluem estudos em pacientes hospitalizados. Um requisito mínimo para um estudo ser relevante para a discussão é que ele avalie a eficácia do protocolo que está em discussão. O problema é que eles devem viver numa bolha em que todo mundo repete o mantra que "não tem mais o que discutir". Daí não discutem, não acompanham as novidades e se mantém na ignorância. São parte do "consenso" sobre o assunto das pessoas que não olharam fontes primárias e só repetem o que os outros dizem.

De resto o artigo só revela uma visão tacanha da Ciência, que confunde a prática científica em si com um mundo burocrático que orbita em torno dessa prática, formado por sociedades científicas, agências reguladoras, revistas que publicam resultados, impact factors e manuais de boas práticas. O bom pesquisador tem as boas práticas científicas já internalizadas, não segue cegamente um manual, entende a razão de certos cuidados serem necessários e qual a relevância de cada um em cada situação. Fazer Ciência não é seguir uma checklist, por isso leva tanto tempo para formar um pesquisador. O bom pesquisador quer saber se o artigo está certo ou errado, quais são seus pontos fortes e fracos, não aonde foi publicado ou a opinião da sociedade XYZ a respeito dele.

Link para o artigo na Folha.

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